Rádio Educativa 630 AM – Programa Uilliam Barbosa | Empreender Não É Glamour: Método, Vendas e Previsibilidade Como Base do Crescimento Empresarial

Eu participei de uma entrevista onde falamos, de forma muito aberta e realista, sobre empreendedorismo, marketing, vendas, previsibilidade, estrutura empresarial e também sobre minha trajetória pessoal. A conversa começou com uma provocação interessante: muitas vezes o empreendedorismo é romantizado no Brasil. Existe a ideia de que abrir uma empresa é algo bonito, inspirador, quase cinematográfico. Mas a realidade prática é muito diferente.

Empreender, principalmente no Brasil, não é glamour. Não é liberdade imediata. Não é trabalhar pouco e ganhar muito logo no início. Na maioria das vezes, empreender começa por necessidade. Foi assim comigo também. Muitas pessoas iniciam um negócio porque precisam sobreviver, porque perderam o emprego, porque a renda não é suficiente, porque precisam criar uma alternativa. E quando isso acontece, o empresário nasce na pressão, não no conforto.

A grande dificuldade do empreendedor brasileiro é a falta de acesso estruturado à informação. Não é falta de esforço. O brasileiro trabalha muito. O problema é trabalhar sem método. A ausência de modelo estruturado é um dos principais fatores de instabilidade nos negócios. Porque o que permite crescimento sustentável não é apenas vender uma vez. É ter previsibilidade.

Previsibilidade é saber quanto você tende a vender no próximo mês. É saber qual é sua média de conversão. É entender seu fluxo de caixa. Se você não sabe quanto vai faturar, você não sabe quanto pode contratar. Se não sabe quanto pode contratar, não consegue estruturar equipe. E sem equipe, você trava no próprio teto.

Todo modelo de negócio tem um teto de faturamento quando o empresário está sozinho. Esse teto é invisível no começo, mas ele chega. Chega quando você começa a ficar sem tempo. Chega quando você percebe que está trabalhando demais, mas não cresce mais. Nesse momento, a pergunta estratégica é: qual função que eu executo hoje que pode ser delegada para que eu compre tempo?

Comprar tempo é um conceito central. Quando você contrata alguém, você está comprando horas de vida daquela pessoa para liberar as suas. Assim como quando você compra uma lava-louças ou uma máquina automatizada, você está comprando tempo. O empresário precisa entender que tempo é o ativo mais valioso que ele possui. Se ele está completamente dentro da operação, ele não consegue crescer.

Uma empresa precisa, desde o início, separar mentalmente dois grandes blocos: setor comercial e setor operacional. Se você não tem alguém focado no comercial, você vai operar muito e vender pouco. E sem venda, não existe negócio. 70% da atenção estratégica da empresa precisa estar em marketing e vendas. Não porque operação não seja importante, mas porque sem fluxo de caixa, não há operação que sobreviva.

Existe um erro muito comum: o empreendedor quer estruturar tudo antes de vender. Quer ter o processo perfeito, a ferramenta ideal, o sistema organizado. Mas como você vai contratar ferramenta se ainda não tem cliente? A realidade é que muitas empresas começam vendendo primeiro e ajustando depois. Claro que planejamento é importante. Mas planejamento não pode virar muleta para não agir.

Eu citei uma referência que admiro muito: você vai planejar, mas grande parte do que você planejou não vai acontecer exatamente como previsto. Porém é pior não planejar nada. Planejar permite ajuste. Ausência de planejamento gera caos completo.

Falamos também sobre esforço operacional versus crescimento com previsibilidade. Muitos empresários trabalham o dia inteiro, mas não crescem. Porque estão ocupados demais executando tarefas e pouco focados em construir sistema de vendas. Se você não tem uma máquina comercial funcionando, você vive apagando incêndio.

Outro ponto importante foi marketing. Marketing não é apenas postar em rede social. Marketing é posicionamento. É comunicação. É como você se apresenta no mercado. Mas dentro do marketing existem dois pilares críticos: constância e intencionalidade.

Muitos empresários fazem ações isoladas e esperam retorno imediato. Investem mil reais em tráfego pago e esperam dez mil de retorno instantâneo. Isso é ilusão. Tráfego pago não é milagre. Ele é potencializador. Ele acelera aquilo que já está estruturado. Se sua base está fraca, ele apenas vai acelerar o fracasso.

Eu dei o exemplo de uma agência de modelos que queria investir apenas em tráfego pago, mas a apresentação da empresa era ruim. Não adianta trazer pessoas para dentro de uma loja bagunçada. O marketing precisa ter coerência do primeiro ponto de contato até o fechamento.

Outro erro frequente é falta de constância. Marketing exige repetição. Exige presença contínua. Mas não basta postar por postar. É preciso analisar dados. É preciso entender o que está gerando retorno e ajustar.

Também falamos sobre como as plataformas digitais funcionam. No começo, elas entregam muito alcance orgânico para crescerem. Depois reduzem a entrega para monetizar através de anúncios. Isso faz parte do modelo de negócio das plataformas.

A conversa também passou por vendas. Existe um preconceito cultural no Brasil de que vendedor é quem “não deu certo”. Isso é ignorância. O empresário é, acima de tudo, um vendedor. Se ele não sabe vender, não sobrevive. Vendas são o motor do fluxo de caixa. E fluxo de caixa é o oxigênio da empresa.

Falamos sobre personalidade do cliente. Nem todo cliente reage da mesma forma. Existem perfis mais racionais, mais diretos, mais emocionais. Saber ler o perfil é fundamental para vender melhor.

Eu compartilhei também parte da minha história pessoal. Nasci em Diadema, num contexto onde a probabilidade de sucesso estatístico era baixa. Meus pais são surdos. Desde criança eu precisava traduzir para eles em médicos, órgãos públicos, resolver problemas. Isso desenvolveu em mim senso de responsabilidade e comunicação.

Eu era tímido quando criança. Mas a necessidade me obrigou a desenvolver habilidade de falar, negociar, resolver conflito. Sou formado em Engenharia de Produção. Inicialmente queria trabalhar como engenheiro em multinacional. Mas quando comecei a entender cálculo de escala, percebi que vender algo para muitas pessoas poderia gerar muito mais retorno do que salário fixo.

Empreendi inicialmente por necessidade, durante a pandemia. Começamos trabalhando intensamente. Das sete da manhã até meia-noite. Não foi glamour. Foi esforço.

Minha esposa e eu estruturamos a empresa dividindo funções: eu assumindo comercial, ela assumindo operação. Isso trouxe organização. Trouxe método. Trouxe previsibilidade. Com isso conseguimos expandir, atender clientes em todo o Brasil e estruturar um modelo validado que se tornou franquia.

Falamos também sobre o perigo de gerir empresa pelo WhatsApp sem processos. Empresa precisa de ferramenta, sistema, controle. Não é improviso eterno.

Ao final, deixei uma mensagem clara para quem quer empreender: você vai errar muito. Empreender é errar mais do que acertar. Vai enfrentar problemas financeiros, problemas pessoais, imprevistos. Mas a diferença está em como você reage às adversidades.

Empreender exige garra. Exige maturidade emocional. Exige disciplina. Não é para quem quer atalhos fáceis.

Mas é possível. Eu saí de um contexto simples, com pais surdos, sem privilégios financeiros, e consegui construir empresa, método, franquia, mentoria e livro.